série Manual | 2011 | colagens

Manual series | 2011 | collages

Discoteca de mão (extrato) | 2011 | vídeo | 4’40”

Hand Disco (extract) | 2011 | video | 4’40”

Será um avião ou uma estrela? Começo a gesticular com a lanterna em punho. De alguma forma, alguém deve receber o meu sinal. Lanço uma ideia ao infinito, com a esperança de que ela chegue intacta ao seu destino e que possa ser decifrada.
 
Aprendi que um espelho durante o dia pode salvar a sua vida. A luz refletida do sol chama a atenção dos aviões de resgate. Mas aqui estou eu, no deserto, com apenas uma lanterna.
 
Sozinho não. Eu e uma imensidão de estrelas, girando tão lentamente que é difícil ver o tempo passar. Fico imaginando se não haveria um pedido de socorro em cada uma delas e se a lua prateada, na verdade, não seria o reflexo de várias pessoas como eu.
 
Apenas um ínfimo farol, esperando ser visto.
 
Também me disseram que quando se está perdido, o melhor que se tem a fazer é ficar parado esperando ajuda. Espero que a bateria dure até eu ser encontrado. Espero que alguém sinta minha falta.
Espero.

Julho/2011
 



Bolas | 2011 | globos espelhados e corrente | 38 x 10 x 5 cm

Balls | 2011 | discoballs and chain | 38 x 10 x 5 cm

Ritmo da noite | 2011 | grafite e acrílica sobre parede | dimensões variáveis

Rythm of the night | 2011 | pencil and acrylic on wall | variable dimensions

Sem título | 2011 | espelhos colocados sobre piso | 7 x 21 cm cada | vista do ateliê

Untitled | 2011 | mirrors on the floor | 7 x 21 cm each | studio view

Onde pisa | 2011 | colagem de recortes de revista sobre papel preto | 21 x 15 cm

Where you stand | 2011 | magazine clippings collage on black paper | 21 x 15 cm


Terão que inventar de A a Z uma relação ainda sem forma que é a amizade: isto é, a soma de todas as coisas por meio das quais um e outro podem se dar prazer.
Michel Foucault

De repente, começamos a espiar, a observar à distância, a nos colocar no lugar do artista, na posição de voyeurs. E é estranha a sensação de ambiguidade despertada: um pouco de desconforto e muito de curiosidade. Quase como se estivéssemos invadindo um mundo íntimo, particular, uma situação da qual não nos caberia participar, e, ao mesmo tempo, experimentássemos uma espécie de familiaridade, de proximidade com aqueles que são observados, com o lugar que acolhe essa relação aparentemente distanciada. Como não sentir empatia? Por que não nos deixar seduzir?

Partilhar é também abandonar-se. E se é de afeto que trata Leo Ayres, do processo recíproco de afetar e afetar-se, Discoteca de Mão só pode ser uma súmula poética. Podemos aí vislumbrar um pouco de cada um dos seus trabalhos, um apanhado das questões que instigam e interessam o artista, mas também a insinuação de novas possibilidades a serem exploradas. Tanto quanto o gesto lúdico da lanterna que ilumina o globo espelhado, sensibilizamo-nos pelo desejo-inquietação do estar junto através da constituição co-partilhada de um tecido afetivo, pelo anseio subjacente da amizade como modo de vida.

Esse desejo-inquietação é a matéria pulsante trabalhada pelo artista, desdobramento de anseios íntimos transplantados para a dimensão pública da exposição. Assim, a galeria passa a ser um ambiente múltiplo, um misto de espaço expositivo e coleção de fragmentos de uma disco club imaginária. Na parede o instante congelado, o rastro de uma passagem, como se estivéssemos diante de uma fotografia desumanizada, porém desejante da presença daqueles que a animariam. Não são mais as frações de espelho que projetam pontos de luz sobre nós, mas nós que nos projetamos – que projetamos nossos desejos – sobre essas superfícies marcadas na escuridão do dancefloor.

Ao sugerir, dissimular e estender poeticamente a abrangência de sua proposta para dentro e fora da galeria, Leo reafirma o convite à participação. Não basta alimentar o sentimento de empatia, mas também a vontade de co-atuar, de passar de observante a observado, colocar-se de fato no lugar do outro. Desse modo, somos instigados a completar aquilo que não nos é dado, a inventar uma relação ainda sem forma. Na grande performance por ele sugerida, precisamos somar para tecer a trama imaginária que nos une, para construir a amizade possível, mesmo que hipotética, entre espectador e artista, entre um eu e um outro.

Julho/2011

(ao meu amor)

Acteon, um ilustre caçador grego, desviando-se de seu caminho em meio aos ciprestes, penetrou, bravamente, uma encantadora gruta em busca de animais escondidos. Por um acaso, surpreendeu a deusa Diana, irmã de Apolo, nua em banho. Sempre orgulhosa de sua resistente castidade, vingou-se, transformando Acteon em um cervo - com chifres, cascos e pelos – para que este não pudesse espalhar os relatos de sua recente e inédita experiência visual. Voltando, assustado, ao seu trajeto inicial pela floresta, o caçador foi devorado, como veado, por seus próprios cães de caça.

Foi este mito grego a primeira inspiração da presente exposição, em que o artista carioca Leo Ayres faz-se um Acteon: sendo sujeito de uma caça ao outro, torna-se objeto por seu próprio voyerismo.

A origem naquele jogo de transformações mitológicas criou estranho fenômeno real: neste lugar onde pisamos, somos tomados por espíritos. Não que Leo quisesse isso. Nem que não quisesse. Mas eles vêm. Com os olhos fixos na pequena caixa negra, que exibe registros feitos através de um olho mágico, sou um obsessivo observador dos rituais privados de um vizinho entre a porta de sua casa e a do elevador. No restante da exposição, estou dentro do ambiente privado no qual, curioso, investigo vestígios do que já houve aqui. Se era outro ou se era eu, é difícil saber; mas alguém esteve com os pés sobre estes tapetes de banheiro. Talvez fosse a mão do outro que, pela falta de uma falange, revelasse minha presença sob ele. Ou o contrário. No recorte deixado por um espelho, surge um olho que pode ser meu ou seu ou dele. Neste espelho, estou refletido você nu segurando a câmera que te fotografo no espelho em que apareço sozinho.

No tapete ou sobre a mesa, trepamos todos naquela árvore - ou fora dela. O jogo continua até quando os corações de copas pingam em gotas e deixam peito aberto; até quando as cartas dadas são de paus vermelhos. Até mesmo quando sumo em um fundo de parede. Então, alguém me sussura na língua de Tirésias, melhor do que eu poderia dizer: “O que você quer mais? Eu já arranhei minha garganta toda atrás de alguma paz. Aprontei demais - só vendo! -, mas, agora, faz um frio aqui. Me responda, tô sofrendo: Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria - Pra quê? Se ninguém tem dó, ninguém entende nada! O grande escândalo sou eu aqui, só!”

Nesta casa, você precisa estar perto para ver, para ouvir. Tudo pede relação, tudo pede atenção, tudo implora por afeto: desesperado por existir. Antes que eu voltasse a qualquer coisa, sua voz sai de minha boca, na língua de Tirésias, dizendo: “A casa está bonita. A dona está demais. A última visita, quanto tempo faz? Balançam os cabides, lustres se acenderão: O amor vai pôr os pés no conjugado coração. Será que o amor se sente em casa? Vai sentar no chão? Será que vai deixar cair a brasa no tapete coração? Quando aumentar a fita, as línguas vão falar que a dona tem visita e nunca vai casar. O amor já vai embora ou perde a condução. Será que não repara a desarrumação? Que tanta cerimônia se a dona já não tem vergonha do seu coração?”

O espírito, por vez, vai embora.

A escolha do título “Como Eu” para sua primeira mostra individual em São Paulo expõe um triplo sentido que revela a centralidade da primeira pessoa (pela comparação), a divulgação não vulgar de um seu privado (pela ação) e sua vontade de teor poético (pela própria construção). Esta mostra tem escala e aura domésticas, além de um vulto de uma latente presença cuja quase existência é narrada pela ausência que se sente. Naquilo que lhe falta, sentimos tudo que há ali: intimidade, circularidade, rumor, devir, camuflagem, fusões e um respeitável destemor de se falar de afeto, de amor, de si e do outro.

Julho/2011