…O Oficial Ayres será premiado com uma menção honrosa, pensou a mulher, enquanto terminava a inscrição da incompreensível fotografia – apenas uma camuflagem, como a do boné que ele usava – no Salão da Academia Militar das Agulhas Negras. Mas, Leo nunca praticou exercícios militares, nem compartilhou com soldados os modestos dormitórios da AMAN. Apenas os observa à distância. E, enquanto preenche o formulário, experimenta a sensação de estar entre eles, ser como eles. Lembra que o exército usa o calor gerado por uma pessoa, como uma assinatura térmica, para detectar o inimigo quando este se confunde com os elementos visuais do ambiente e não pode ser imediatamente identificado. Leo assina o formulário e entrega a fotografia-camuflagem. Age com certa indiferença; repete comportamentos esperados naquela situação. Não quer ser identificado. Tem início a Operação Camuflagem. O território a ser invadido pode ser penetrado, desde que adotada a camuflagem adequada.
Sabe-se que ao analisar informações visuais, percebemos a continuidade de cores e de padrões formais. Quando há uma quebra de continuidade o indivíduo é notado. Uma vez identificada, e mesmo camuflada, uma pessoa se destaca porque a organização da percepção torna-se diferente: procura uma única pessoa que se torna um alvo. Então, parece estranho que não tenha sido vista antes. Em um primeiro momento a camuflagem provoca o desaparecimento do indivíduo no todo; permite estar na cena sem ser visto. Uma vez descoberta é inútil.
Em Operação Camuflagem, mesmo os limites do território investigado estão dissimulados. O que estaria sob investigação? O sistema de arte ou a academia militar? Os limites do campo da arte ou o reduto protegido pelos portões de instalações militares? Algo que tenham em comum?
Suspeita-se que tanto a hierarquia militar – emblema do controle do comportamento social – como certas regras da boa arte são afirmadas por mera imposição. Ao peso da “autoridade” soma-se um sistema de recompensas – prêmios medalhas ou apenas uma “menção honrosa”, como a que recebeu o Oficial Ayres. Os salões, herdeiros da tradição do ensino nas academias de Belas Artes do século XIX, tornaram-se, com o tempo, caricaturas das formas de circulação da arte no mercado – para alguns, uma camuflagem identificada.
O Oficial Ayres é portador de uma alteração visual, valiosa para a identificação de objetos camuflados: vê certas cores alteradas. Talvez por este motivo esteja investido desta operação em que comportamentos dissimulados são flagrados em situações nas quais seriam inaceitáveis (certos daltônicos são convocados à linha de frente porque identificam mais facilmente objetos camuflados). A intimidade dos soldados é observada por ele, indiretamente, mas com a naturalidade de quem apenas observa. Dormitórios e banheiros coletivos vazios mostram-se intensamente povoados. Os soldados que não vemos, na série de fotografias, estão nus. Podemos observá-los nos detalhes que quebram a seqüência do mobiliário idêntico, nas malas guardadas na parte superior dos armários, no desarranjo dos travesseiros e roupas sobre a cama. Estes flagrantes da intimidade detectam o calor dos seus corpos.
Algo semelhante se revela na desorganização da sala em que se realizam as inscrições para um salão com o tema “exército” e circula discretamente entre os objetos registrados pela câmera, ambos vão narrando relações que não se apresentam de imediato. É que o Oficial Ayres adota uma tática peculiar de camuflagem: ora torna-se o outro, ora se infiltra na intimidade alheia. Observa, à distância, para estar mais perto, mover-se como se estivesse lá, habitar sem ser visto. É uma tática de investigação mais que de ataque, de aproximação mais que de combate.
Junho/2008
